
O réveillon em Capão da Canoa, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, deixou um retrato incômodo do modo como parte da sociedade ainda se relaciona com os espaços públicos — e projetou para além das fronteiras locais uma visibilidade negativa para a imagem da cidade. Após a festa, mais de 170 toneladas de resíduos foram recolhidas da orla, em uma operação de limpeza que começou às 4h da madrugada e mobilizou 28 caminhões. O número, por si só, já seria suficiente para provocar reflexão. Mas o cenário foi além do lixo.
Após o encerramento dos shows da virada do ano, uma multidão permaneceu aglomerada na orla, exigindo a atuação do Batalhão de Choque da Brigada Militar, acionado para dispersar o público. A intervenção ocorreu na madrugada desta quinta-feira (1º) e incluiu o uso de bombas de efeito moral. Segundo a BM, não houve prisões nem feridos, mas os vídeos que circularam nas redes sociais expõem uma situação que extrapola um simples controle de multidão.
As imagens mostram uma praia tomada por resíduos, objetos espalhados pela areia e até uma espécie de “chuva de chinelos”, tratada por alguns como brincadeira, mas que revela uma postura imatura, perigosa e profundamente desrespeitosa. O espaço público, que deveria ser compartilhado e preservado, foi reduzido a um palco de excessos, descuido e falta de responsabilidade coletiva. Ao circular amplamente nas redes, essas cenas acabam por associar o nome da cidade ao caos, à sujeira e à desordem, afetando sua reputação turística.
É impossível dissociar os fatos: o volume de lixo, a necessidade de uma operação policial de choque e o comportamento registrado nos vídeos fazem parte de um mesmo problema estrutural. Celebrações populares são legítimas e importantes, mas não podem servir de justificativa para a degradação ambiental, o desrespeito às regras mínimas de convivência e a transferência dos custos — ambientais, financeiros e humanos — para o poder público e para os trabalhadores da limpeza urbana.
Capão da Canoa acordou no primeiro dia de 2026 com toneladas de resíduos para remover e com um desgaste simbólico de sua imagem pública, justamente em um período estratégico para o turismo. O episódio escancara a urgência de políticas públicas mais firmes, campanhas educativas eficazes e, sobretudo, de uma mudança cultural: festejar não pode significar destruir. Caso contrário, a cada virada de ano, repetiremos o mesmo roteiro — muita festa, muito lixo e pouca consciência.





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